Corte-poético

*ao amor, com amor.

Incrível como as pessoas tornam-se escravas de seus afetos. Dia desses apaixonei-me por uma mulher, perdidamente, a ponto de fantasiar coisas estranhas sobre meu futuro, algo do tipo abrir mão de tudo que consegui construir até hoje para ficar ao lado dessa pessoa. Havia, entretanto, obstáculos, muitos por sinal. A maioria deles fantasiosos, claro, e acho que um deles foi o singelo motivo de ela ser uma puta. Sim, uma puta… garota de programa, profissional do sexo. Enfim, os termos variam de acordo com o grau de neurose alheia. Estranho ouvir isso, especialmente porque somos constantemente condicionados a fragmentar sexo de amor, como se quando praticássemos o coito nosso corpo parasse de produzir afetos que aumentem nossa potência de exitir. Partindo desse ponto de vista, questiono-me se humanidade foi mumificada, sabem? Os corpos se mantêm, mas o movimento, a força, o fluxo, perderam-se no caos que é a incerteza, e, como no antigo Egito, temos a fé de que tudo isso se sustenta apenas utilizando essa técnica. Ledo engano. Conheço, e talvez até desconheça, muitas pessoas que apenas sobrevivem, corpos sem força, movimentos sem sensibilidade, devires impedidos de se lançarem para algum lugar que não sabemos o que é nem o que nos espara lá. Mas aí que está a des(razão). Ali, extamente naquele buraco, que ao mesmo tempo nos amedronta e pelo qual nos deixamos sempre seduzir, talvez esteja o que nos faz vibrar. Uma falta. Um ponto. O desejo. Mesmo nesse eterno vazio preenchido (paradoxal, como a vida costuma ser) que é a existência, ainda precisamos encontrar um lugar no qual algo de/em nós se faça pulsar. Alegro-me, neste caso, em intuir o que o filósofo da vida Nietzsche prospos – amor fati, ou seja, a vida como um grande sim. Devaneando sobre isso, pergunto-me, sempre quando posso, se quero viver esse momento, mesmo ele se repetindo eternamente. Normalmente bato com a fuça na parede, mas continuo tentando. Sim, mas e a puta? Você deve está pensando. Escrevi sobre isso porque sempre que comento minha paixão por ela, além do choque que causo nas pessoas, a maioria delas, movidas por uma ideologia pervesa, cujo recorte (tal qual nos mostra a psicanálise) no corpo do outro traz como contrapartida a cegueira opressora/dominadora, não entende que, da mesma forma que a cientista usa seu cérebro ou a poetisa utiliza seu coração, a garota de programa usa seu corpo (sim, todo ele!) para produzir afetos, conceitos e percepções. Filósofa, poetisa, cientista. Ela costuma ser tudo isso. Vou seguir, por isso, o conselho do filósofo da vida, e continuar amando, loucamente, essa mulher. E se os ressentidos chegarem com um grande porquê, simplesmente direi: Por que não poderia ser outra forma.

(Oluap Sellet)

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