Estreia hoje documentário que resgata obra do cineasta Ozualdo Candeias

Da Rede Brasil Atual

Filme de Eugenio Puppo faz uma homenagem ao caminhoneiro que virou um dos principais nomes do cinema marginal

 

Divulgação

Ozualdo

“Todas os filmes contavam a história da classe média para cima e eu quis contar a história da classe média para baixo”

É bem provável que quem tem menos de 50 anos não se lembre de Ozualdo Ribeiro Candeias. Depois de ter trabalhado no campo, como office-boy, caminhoneiro, militar, motorista de táxi e operário, ele ficou conhecido na década de 1960 como um dos pioneiros do cinema marginal nacional. Sua trajetória como cineasta é contada no filme Ozualdo Candeias e o Cinema, dirigido por Eugenio Puppo, que estreia nesta quinta-feira (3), no CineSesc, em São Paulo. O longa contará com sessões diárias sempre às 21h.

O mérito do documentário de Puppo é deixar que o próprio Ozualdo conte sua história e as histórias por trás de seus filmes. Boa parte das imagens são originais restaurados dos curtas e longas de Candeias, acompanhadas por depoimentos que apresentam seu ponto de vista sobre sua filmografia, a Boca do Lixo, a pornochanchada e a saudosa Rua do Triunfo, reduto do cinema nacional e um dos maiores polos de produção cinematográfica do país na década de 1970.

A narrativa do documentário é como a de seus filmes: desbocada, debochada e cheia de ironia e provocação. Seu primeiro longa de ficção foi À Margem (1967), filme de baixo orçamento que não convenceu a crítica, mas tornou-se cultuado por mostrar uma parcela invisível da população. “Me ocorreu que eu deveria fazer um tipo de fita que não estava sendo feito. Todas contavam a história da classe média para cima e eu quis contar a história da classe média para baixo.”

Talvez tenha sido essa ousadia o que alavancou seu nome – não o suficiente para que perdesse a alcunha de “marginal”). Ele retratou um Brasil arcaico, cheio de machismo e racismo. Por mais que fossem, por vezes, estereotipadas (e longe do que hoje pode se considerar politicamente correto), Ozualdo teve a coragem de abordar questões espinhudas para a época.

Exemplo disso é o filme A Herança, uma adaptação de Hamlet, de William Shakespeare para a realidade brasileira. “Eu achava que pegando o Shakespeare e passando para o bang-bang, os produtores, que eu sempre achei uns caras inteligentes, poderiam se interessar por esse tipo de coisa. Era um espetáculo e poderia ser o que também chamam de ‘cultura’. Daí eu fiz uma espécie de adaptação, mas quebrei a cara. Ninguém se interessou. Noventa por cento das pessoas que entendem de Shakespeare e de Hamlet só sabem dizer ‘Ser ou não ser‘. Por causa dessa fita, eu tive de andar me defendendo por que eu estava avacalhando com Shakespeare. Era uma transferência que eu estava fazendo: uma Ofélia poderia ser negra porque seria mais brasileiro. Mas quando eu dizia transferência de valores ou de situação, ninguém entendia”, alfineta o cineasta, cuja figura física aparece pouco no documentário.

O passeio de Ozualdo pela sua obra e pela cinematografia brasileira é franco, sem rodeios, sexual, político e entretenimento. Às vezes, tudo ao mesmo tempo. “Meus filmes, me parece, têm algumas coisas diferentes – um pouco – dos outros. Não sei bem o que é, mas é um pouco diferente como proposta, como estética também, a maneira de ver. Eu penso no cinema-linguagem e naquele cinema de informação. A maneira de ele ser feito, francamente, isso não me preocupa em nada”, revela o cineasta.

Ozualdo Candeias e o Cinema é um filme-retrato contado em primeira pessoa pelo cineasta morto em 2007. Porém, mais que o artista, o que se vê na tela é o próprio Brasil da época, tão genuíno, contraditório, despudorado (e censurado) que a elite não queria ver. Um documentário nem sempre fácil de assistir, mas que dá a devida e merecida importância a um gênio popular.

Ozualdo Candeias e o Cinema
Direção, roteiro e montagem: Eugenio Puppo
Coordenador de produção: Matheus Sundfeld e Raphael Bicesto
Edição de som: Marcos Iazzetti
Assistente de edição de som: Fernando Werneck
Designer gráfico: Pedro Di Pietro
Pesquisa: Eugenio Puppo
Produtora: Heco Produções
Distribuição: Tucuman Filmes
Duração: 103 min.
Classificação: 18 anos

Quando: a partir de hoje, 3 de julho, às 21h
Onde: CineSesc
Rua Augusta, 2075 – São Paulo (SP)
Mais informações: (11) 3087-0500

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